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“Temos de ouvir bem o que o paciente pretende”

Na Dentimed, em Lisboa, está tudo em família. Hugo Brandão é médico dentista e diretor-clínico, o irmão e a cunhada são arquitetos e os responsáveis pela transformação do espaço outrora existente numa clínica, a esposa é gestora e a mãe, médica oftalmologista, exerce paredes-meias com o consultório do filho, já que passou a exercer a sua prática clínica na Dentimed. “Há muito tempo que queria ter uma clínica dentária e abri-a com a ajuda dos meus pais, que também são médicos”, conta Hugo Brandão. No entanto, antes de abrir o espaço em setembro de 2009, o médico dentista trabalhou muitos anos noutras clinicas dentárias, um processo que, como diz, “faz parte da evolução como médico dentista”.

Abrir a clínica foi uma missão digna de Ulisses e equivalente aos 12 trabalhos de Hércules, já que a primeira batalha foi logo encontrar um espaço que correspondesse aos ideais do médico dentista: “andei muito tempo, por Lisboa, à procura do espaço ideal e acabei por descobrir este onde nos encontramos, que está bem localizado, a um bom preço”. Com a primeira missão cumprida, chegou a vez de empreender novas tarefas, mais morosas e complicadas, na medida em que abrangiam obras, burocracias e licenças. “Demorámos cinco anos a conseguir legalizar a clínica”, desabafa Hugo Brandão. E enquanto esperava também desesperava, já que a ansiedade para começar a trabalhar no seu próprio espaço era muita.

Hugo Brandão [1]

Hugo Brandão, Diretor-Clínico da Dentimed

Um elevador a caminho

Mas o dia em que pode, finalmente, abrir as portas acabou por chegar e o médico dentista tinha finalmente a clínica que sempre sonhara. Constituída por dois pisos (um é cave), “só podemos utilizar o primeiro para as consultas, tanto de medicina dentária, como de oftalmologia, por causa da acessibilidade. Por isso, neste momento só temos três gabinetes, dois de medicina dentária e um de oftalmologia”, explica o diretor-clínico. Daí que um dos seus projetos futuros passe por instalar um elevador, de modo a “conseguirmos fazer consultórios no piso de baixo, quer sejam destinados à medicina dentária, quer a outra área da medicina”.

E bem que Hugo Brandão pode pensar na expansão do espaço da Dentimed, ao nível de consultórios, já que se a clínica continuar a desenvolver-se a este ritmo, mais tarde ou mais cedo irá precisar de mais consultórios devido ao aumento do número de pacientes. “Noto que ao longo destes anos temos tido um aumento do número de pacientes de semana para a semana”, revela o médico dentista, acrescentando que, no entanto, “há épocas em que há uma quebra na assiduidade ao consultório, como por exemplo durante o mês de setembro porque as famílias têm de comprar os livros escolares para as crianças”.

Apesar deste crescimento, os tempos de crise têm impactado o dia-a-dia da Dentimed. “Temos notado uma quebra do poder económico por parte dos pacientes, uma vez que antes optavam pela melhor reabilitação que pudéssemos propor e atualmente já não é assim. Escolhem o tratamento em função daquilo que podem pagar”, explica o diretor clínico. Há inclusive quem na primeira consulta “deixe o aviso de que não pode gastar muito dinheiro”. A crise pode ser uma sombra a pairar sobre a clínica, mas graças ao trabalho que o médico dentista e a sua equipa têm desenvolvido o número de clientes tem aumentado. “A nossa publicidade é feita apenas pelos pacientes, que saem daqui satisfeitos”. Por outras palavras, na Dentimed tem-se conseguido fidelizar os clientes, dado que “damos sempre o nosso melhor, realizando tratamentos de acordo com aquilo de que o paciente necessita e atendendo ao que ele quer”. Neste contexto, o diretor-clínico defende a importância de se “planear bem o tratamento, assim como de se ouvir bem o que o paciente pretende”.

Clínica Dentimed [2]

Clínica Dentimed

100% medicina dentária

Quando está na Dentimed, Hugo Brandão ‘aplica’ 100% do seu tempo à medicina dentária, dedicando-se sobretudo à implantologia, periodontologia, prótese fixa e dentisteria. Para complementar o raio de atuação da clínica ao nível da medicina dentária, o médico dentista tem mais dois colegas a auxiliá-lo na clínica, um dos quais dedicado à ortodontia. Quanto à gestão, quem trata desta área “é a minha esposa, nomeadamente de tudo o que está relacionado com a encomenda de materiais, burocracias, pagamentos a fornecedores, etc., dado que hoje em dia apenas me dedico à medicina dentária”. O diretor-clínico é apologista deste ‘separar das águas’, ou seja, enquanto o médico dentista se dedica à medicina dentária, outra pessoa encarrega-se da gestão: “comigo resulta melhor este método de trabalho”. Apesar disso revela que na fase inicial, “como conhecia melhor o negócio do que a minha mulher, cheguei a estar envolvido na parte da gestão, de modo a poder orientá-la. Mas hoje em dia é ela que toma conta dessa área”.

Quanto à formação, o diretor-clínico aponta que “é extremamente importante para a profissão. Não podemos ficar parados, temos de nos ir munindo de conhecimentos para melhor servir os nossos pacientes”.

Apostar em formação

Além de melhorar a acessibilidade para criar consultórios no piso inferior da clínica, entre os projetos futuros está a aposta na formação. “Irei sempre investir em formação e em equipamentos. De momento não quero ter mais clínicas, porque esta já me dá bastante trabalho”. Hugo Brandão esclarece que “trabalhar em várias clínicas tem os seus benefícios, mas depois não estamos focados num só local”. Quanto à formação, o diretor-clínico aponta que “é extremamente importante para a profissão. Não podemos ficar parados, temos de nos ir munindo de conhecimentos para melhor servir os nossos pacientes”. Hugo Brandão tem feito formação essencialmente na área dos implantes, cirurgia e periodontologia. “Tenho feito formação em Portugal, tenho a noção de que o nosso país é um dos melhores do mundo no que diz respeito à formação. Temos boas escolas e bons médicos dentistas, que estão bastante informados e atualizados sobre aquilo que se passa ao nível mundial”.

A medicina dentária que se pratica em Portugal é, assim, de excelência. No entanto, isto não é sinónimo de ausência de problemas. Presentemente, um dos problemas mais graves com que a classe se defronta é o desemprego e as condições precárias de empregabilidade, muito devido ao excesso de profissionais. “Temos claramente um excesso de médicos dentistas”, afirma Hugo Brandão. “Não sei que solução se vai dar ao problema, mas é complicado para os jovens que estudaram cinco anos, tornaram-se médicos dentistas e depois não têm emprego, sobretudo porque quando se matricularam no curso já se sabia que iam enfrentar estas dificuldades quando o terminassem e não se fez nada para o evitar”.

Na Dentimed, os serviços não estão direcionados para um público-alvo específico, daí que abranja uma franja diversificada da população. Por isso, Hugo Brandão afirma que “se nota uma diferença, em termos de saúde oral, ao nível dos extratos sociais”. Não obstante, o mais preocupante são as crianças porque “consomem muitos doces e, no geral, têm uma má dieta”. E, em consequência, surgem as cáries. Apesar desta realidade, a verdade é que atualmente as pessoas “estão mais despertas para a prevenção, assim como mais informadas, nomeadamente ao nível dos tratamentos”. Deste modo, quando chegam ao consultório “querem saber o que se vai fazer e muitas vezes já vêm com segundas opiniões”. Por outro lado, segundo o diretor-clínico, também é frequente recorrerem ao Dr. Google.

Artigo publicado na edição de setembro/outubro de 2014 da revista SAÚDE ORAL