«Uma das muitas complicações da diabetes é o elevado risco de desenvolvimento da doença periodontal», afirmou Maria E. Ryan, directora de investigação clínica da School of Dental Medicine, da Stony Brook University (Nova Iorque), ao “Medical News Today”, explicando que «a partir do momento em que esta infecção e inflamação oral é diagnosticada, como acontece com qualquer infecção, torna-se muito mais complicado controlar os níveis de glucose no sangue», acrescentou.
Neste sentido, um tratamento intenso da periodontite reduz significativamente os níveis de A1C, uma medida de controlo da glicose, nos primeiros dois a três meses.
Na realidade, esta ligação entre a saúde oral e a saúde sistémica pode mesmo ter início antes do diagnóstico clínico da diabetes. «Descobrimos que o agravamento da doença periodontal está associado a elevados níveis de resistência à insulina, normalmente um precursor da diabetes tipo 2, bem como a elevados níveis de A1C, uma medida de controlo glicémico da diabetes», explicou a responsável.
A importância destas descobertas foi sublinhada por George W. Taylor, professor associado de Dentisteria, na Schools of Dentistry and Public Health, da Universidade de Michigan. «Inúmeros estudos recentes demonstram que a doença periodontal torna os indivíduos com diabetes tipo 2 mais vulneráveis a um pior controlo glicémico, o que os coloca num risco ainda mais elevado de doença renal em fase final e até mesmo de morte», salientou o docente.
«Dado os numerosos estudos médicos que evidenciam que um óptimo controlo glicémico permite um desenvolvimento reduzido da progressão de complicações inerentes à diabetes, acreditamos que existe a possibilidade do tratamento periodontal proporcionar um incremento no controlo da diabetes e, subsequentemente, uma redução do risco das complicações da doença», constatou Taylor.
Periodontite associada à resistência à insulina e gravidade da diabetes
«Numa análise do National Health and Nutrition Examination Survey relativa aos dados da população americana, entre 1988 e 1994, descobrimos que as pessoas diagnosticadas com doença periodontal têm duas vezes mais probabilidades de revelar resistência à insulina em oposição àqueles que não sofrem da doença», disse o médico dentista George W. Taylor. Esta conclusão foi possível após o controlo de outras características que seriam associadas à resistência à insulina, como a obesidade, lípidos, exercício e outros marcadores inflamatórios.
Num estudo não publicado do General Clinical Research Center, da Stony Brook University, um grupo de indivíduos foi avaliado em parâmetros relacionados com a toma e sensibilidade à insulina, bem como a capacidade de resistência a esta substância, bem como se teriam pré-diabetes e se contavam com um acompanhamento regular em termos de saúde oral.
Verificou-se, assim, que o nível de resistência à insulina evidenciava uma correlação directa com a gravidade da respectiva doença periodontal.
«A inflamação da cavidade oral pode estar a contribuir para a resistência à insulina neste grupo de pacientes», avançou Maria E. Ryan.
Além disso, os investigadores mediram neste grupo os níveis de citoquinas (mediadores pró-inflamatórios envolvidos na longa lista de complicações associadas à diabetes). «Testes genéticos demonstraram que 50% pacientes que apresentam resistência à insulina tinham poliformismos da IL-1, em oposição aos 20% da generalidade da população, o que significa que revelava susceptibilidade genética a uma resposta inflamatória excessiva, sendo que estes 50% correspondiam ao grupo com níveis mais elevados de resistência à insulina e que apresentava doença periodontal mais severa», afirmou.
A presença dos poliformismos da IL-1 encaixa-se a uma teoria que defende que a periodontite piora o controlo glicémico da diabetes tipo 2.
«Acreditamos que a periodontite pode afectar adversamente o controlo glicémico, uma vez que os químicos pró-inflamatórios produzidos pela infecção podem ser transferidos do tecido gengival para a corrente sanguínea e estimular as células a tornarem-se resistentes à insulina», elucidou Taylor. «Por conseguinte, a resistência à insulina impede que as células do organismo removam a glicose da corrente sanguínea para a produção de energia», acrescentou.
Periodontite associada a complicações da diabetes
Baseando-se em diversos estudos da Universidade de Michigan e não só, Taylor demonstrou que existe uma associação entre a periodontite e as complicações adjacentes à diabetes tipo 2.
«Um conjunto recente de estudos observacionais sobre os índios Pima, do Sudoeste dos Estados Unidos, uma população caracterizada por uma elevada taxa de diabetes tipo 2, investigou se aqueles que apresentam periodontite se encontram numa posição mais susceptível de vir a desenvolver um pobre controlo glicémico», disse Taylor. «Descobrimos que aqueles que sofriam de periodontite tinham quatro vezes mais probabilidades de desenvolver um pior controlo glicémico após dois anos de acompanhamento», revelou.
Tratamento periodontal pode impulsionar controlo da diabetes
«Tal como a doença periodontal contribui para piorar a diabetes, o reverso também parece ser verdadeiro, pelo que o tratamento da doença periodontal beneficia o controlo da diabetes», constatou Taylor.
«Publicámos recentemente um ensaio clínico randomizado, financiado pelo Serviço Nacional de Saúde norte-americano, que envolveu 46 pessoas com diabetes tipo 2 e, 15 meses após o tratamento periodontal de rotina, verificou-se uma significativa redução estatística de 0,67% nos níveis A1C», afirmou Taylor.
«Quando a glicemia se mostra difícil de controlar, o médico deve questionar o paciente sobre a última vez em que consultou um médico dentista, se lhe foi diagnosticada periodontite e, se este responder positivamente, perguntar-lhe se o tratamento foi concluído», aconselhou Ryan.
«A consulta com o médico dentista pode ser apropriada para se discutir se o tratamento periodontal foi bem sucedido ou se o paciente ainda se encontra a tomar antibiótico, pois da mesma forma que é difícil controlar a diabetes se o paciente apresentar uma infecção na perna, o mesmo se aplica quando existe uma infecção ou uma inflamação gengival», concluiu Ryan.