“Tivemos a nata da medicina do sono em Portugal, com a Professora Teresa Paiva a abrir as sessões científicas do congresso alertando para o facto de muitas doenças do sono serem transversais a várias especialidades médicas e que todos temos obrigação de conhecer para, pelo menos, referenciar adequadamente”, avançou à SAÚDE ORAL Miguel Meira e Cruz, presidente do Congresso.
Uma experiência a repetir no futuro “sem qualquer sombra de dúvida, até porque todos os colegas o ‘exigiram’. Está ainda por decidir entre os membros da direção da Sociedade Portuguesa de Medicina Oral do Sono qual a periodicidade, contudo já há a promessa de que tudo vamos fazer para que uma formação básica seja dada em vários cursos ao longo do ano”, revelou Miguel Meira e Cruz. “A presidente da Sociedade Alemã de Medicina Dentária do Sono, Susanne Schwarting, confessou-me que naquele país, o primeiro evento organizado em 2001 conseguiu reunir apenas 25 participantes. A Sociedade Britânica teve a mesma tendência. Nós reunimos 135 participantes, entre colegas especialistas em estomatologia e medicina dentária, clínicos gerais, pneumologistas, pediatras, neurologistas, cirurgiões, psicólogos e enfermeiros, que ficaram a conhecer as técnicas e métodos utilizados em medicina oral, bem como algumas indicações importantes para a referenciação”.
Durante o Congresso, as novidades apresentadas relacionaram-se com “a defesa de orientações clínicas padronizadas em medicina do sono, nomeadamente nas doenças respiratórias do sono e nas doenças dos movimentos”, explicou Miguel Meira e Cruz. “O tratamento odontoestomatológico com dispositivos orais está indicado como opção de primeira linha no ressonar persistente, na Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAHOS) ligeira a moderada e na SAHOS grave, quando os doentes não tolerem a terapêutica por sistemas de pressão positiva. O dentista pode ter um papel capital nestas condições e João Lopes Fonseca e Jose Ceballos (ambos Estomatologistas e Ortodontistas) demonstraram, passo a passo, as etapas de adequação de dispositivos de avanço mandibular”, referiu Miguel Meira e Cruz.
O presidente do Congresso destacou ainda a intervenção de Amélia Feliciano (Pneumologista especialista em sono) sobre o tratamento das perturbações respiratórias do sono com recurso à pressão positiva. “Alertou para o facto de que nem tudo é obstrutivo e mesmo dentro das condições obstrutivas, a gravidade das mesmas, nomeadamente pela variação da pressão critica (pressão que determina o colapso da via aérea superior), estas devem ter abordagens diferentes e muitas vezes os dispositivos orais não são suficientes, existindo absoluta necessidade da prescrição de CPAP (pressão contínua positiva) ou APAP (pressão contínua ajustada automaticamente). Existem entidades que necessitam de adequação do esforço inspiratório e expiratório, o que se consegue através do BIPAP (pressão positiva bi-nivel)”.
Coube a Miguel Meira e Cruz abordar num workshop o bruxismo do sono, um tópico do qual pouco se tem falado. “Foram focados pontos-chave que permitem entender porque é necessário avaliar e tratar esta doença do sono. O dentista é provavelmente o profissional mais atento às suas consequências – desgaste dentário – e descuida-se na recolha de informação indispensável para a decisão terapêutica”, referiu.
“Existem casos em que o bruxismo do sono se associa a eventos respiratórios e/ou eventos destabilizadores do meio interno, como o refluxo gastroesofágico. Normalmente, os movimentos rítmicos associados a este tipo de bruxismo são de natureza tónica. Por outro lado, o ruído, a luminosidade e estímulos desencadeadores dos sistemas do alerta (nomeadamente do sistema ativador reticular ascendente) associam-se a outro tipo, distinto, de eventos motores, de natureza fásica. Esta diferença tem todo o interesse clínico e diagnóstico pois estaremos frequentemente a confundir situações secundárias, de situações primárias, respetivamente com consequentes indicações terapêuticas que são distintas de acordo com o fator etiológico ou alteração de base”
E dá como exemplo: “o bruxismo do sono secundário a eventos respiratórios é tratado eficazmente com o uso de dispositivos de avanço mandibular. Controlando o refluxo com inibidores de bomba de protões cessa normalmente o movimento rítmico associado. Já o bruxismo idiopático, com provável alteração neuronal de base, é muitas vezes adequadamente tratado com agonistas dopaminérgicos (como o ropinirol) ou com a terapia cognitivo-comportamental (se associado a hiperactividade psicossomática)”.
Apesar do sucesso alcançado na primeira edição, a organização já tem em mente alguns aspetos a melhorar no futuro, como a dificuldade de referenciação. “Como referenciar? Esta foi uma questão colocada por vários colegas e que é importante, pois embora o tema não deva ser tabu para nenhum dentista generalista, há situações diversas em que a necessidade de referenciar a um médico, dentista ou de outra especialidade, com especialização em medicina do sono se torna essencial”.


