O vice-reitor da Universidade de Lisboa, fundador da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa, primeiro doutorado em Estomatologia pela Universidade de Lisboa e professor catedrático, eleito por unanimidade pelos membros do júri dos Prémios Saúde Oral, vai estar em destaque na próxima edição da revista SAÚDE ORAL com uma entrevista de fundo, da qual deixamos um excerto.
A medicina dentária vive hoje emergida em graves problemas. Desemprego, baixos salários, precariedade são alguns deles. Este cenário tem vindo a motivar um coro de protestos, encabeçado pelo bastonário, a defender o encerramento de faculdades. Enquanto médico e vice-reitor, como vê este problema?
Não vou, obviamente, apontar o dedo a nenhuma faculdade em particular, mas realmente tenho tido reuniões com o senhor bastonário, de quem sou muito amigo, e não há dúvida de que tem razão. O nosso número clausus (FMDL) baixou há uns anos, fui eu próprio quem o baixou quando era diretor, e tem-se mantido nesse valor. Tem-se procurado implementar outro tipo de formação, que acho que será o futuro, que é implementar as pós-graduações, as especialidades, os doutoramentos, etc., de forma a dar uma formação mais completa, mais profunda, mas não aumentar, de forma alguma, o número de licenciados.
Sabendo-se que as faculdades são financiadas conforme o número de alunos que têm…
Reconheço esse facto. É verdade que as faculdades são financiadas pelo número de alunos que têm. Quando se inaugurou a Faculdade de Medicina Dentária de Coimbra, nos anos 80, foi dito pelo Prof. Mark Taller que Portugal não precisava de mais que três faculdades estatais para acorrer às necessidades, que estava assegurado o número de dentistas para o futuro. Bem, não sei o que aconteceu, mas foram abrindo mais e mais faculdades e neste momento são já sete. Isso alterou o panorama. Na realidade começaram a surgir problemas como o desemprego. Pessoas qualificadas, que têm feito excelente figura lá fora, foram obrigadas a emigrar, nomeadamente para a Inglaterra e outros países. Pese embora a delicada situação que viviam no país, estes emigrantes têm dado uma imagem ótima da nossa profissão – como aliás sucede com todo o português que vai para fora. Mais ou cedo ou mais tarde terá de ser feita alguma coisa para alterar esta situação porque chegámos a um ponto que, devido ao excesso de oferta, os dentistas são convidados a trabalhar em condições que não são as mais corretas. Estas decisões não passam pelas universidades, nem pela própria Ordem.
A tutela não estará a ajuizar da melhor forma a dimensão do problema?
Apenas o Governo tem poder para tomar medidas que corrijam a situação. Visto do lado lá, o ministério tomou uma posição que pode ser explicada pela necessidade de criar mais concorrência, “para que só sobrevivam os melhores, etc.”, mas este prisma é redutor. Um jurista pode, efetivamente, desempenhar funções que vão além da barra do tribunal. Já o médico dentista, não estou a vê-lo fazer outra coisa que não seja trabalhar num consultório. Em suma, acho que o senhor bastonário tem todo o meu apoio nesta luta (pela redução do número de faculdades).
Entrevista na íntegra na edição nº 79 da revista SAÚDE ORAL