O XXIX Congresso da SPEMD foi, por razões várias, um evento que ficará na história da instituição e de todos os profissionais que trabalham na área da saúde oral – tem a preocupação de ser uma iniciativa “transprofissional”, que aglomera estomatologistas, médicos dentistas, higienistas orais, técnicos de próteses e assistentes.
Realizado entre os nas instalações da Universidade Católica de Lisboa, o Congresso, em que se celebraram os 90 de vida da SPEMD (a mais antiga sociedade científica portuguesa), teve múltiplos pontos de interesse. Para além da parte científica, que foi rica e variada, os responsáveis aproveitaram a ocasião histórica para apresentar oficialmente a obra “SPEMD: 90 anos para a História”, um livro em que se narra, passo a passo, as nove décadas de vida de tão antiga e distinta sociedade científica.
Durante a apresentação da obra, que ocorreu durante a sessão solene do evento, o presidente da SPEMD, José Pedro Figueiredo, não se coibiu de mostrar a sua «enorme alegria» em participar «em tão significativo momento histórico». Segundo explicação do líder da SPEMD, não se trata de um livro com (toda) a história da Sociedade, mas apenas um conjunto de registos de elementos que foi possível coligir. Este conjunto de dados da História da SPEMD, diga-se, resultou, sobretudo, da consulta da Revista Portuguesa de Estomatologia e Medicina-Dentária e dos Livros de Actas da Assembleias-Gerais e das Tomadas de Posse dos Órgãos Directivos da Sociedade.
Em nota introdutória do manual, escreveu-se que a obra não tem outra ambição «que não a de garantir que pelo menos estes registos não se possam perder, aqui ficam estes “subsídios para a memória futura”».
«Por agora, nesta circunstância, este livro pretende apenas registar para memória futura os elementos disponíveis, constituindo um rol de subsídios para a História da SPEMD – na esperança de que os outros colegas, no futuro, possam aprofundar e continuar estas notas históricas que aqui agora ficam (eventualmente produzindo obra de maior detalhe e de outro fôlego)», explica o homem-forte da SPEMD. Assim, «fica por nossa conta a preservação do mais relevante que até agora se recolheu – e não se impede que ulterior gesto engrandeça o registo», explicou, aproveitando para agradecer a Carlos Portugal, o médico que durante três anos recolheu o material que estava disperso por vários outros sítios.
Pujante e motivada
Em jeito de balanço dos 90 anos da SPEMD, José Pedro Figueiredo deu largas à sua «confiança no futuro» e avançou que a Sociedade chega a este 90.º aniversário «pujante e motivada, desenvolvendo uma intensa actividade quotidiana, consolidada e continuada». E reforça referindo o aumento do prestígio da Sociedade e a sua credibilidade perante a opinião pública e perante a indústria farmacêutica, através do seu programa de “selos de reconhecimento SPEMD”; reunindo regularmente o seu Congresso Anual «com crescente participação e interesse de colegas»; realizando anualmente o Mês da Saúde Oral «uma iniciativa que se revelou uma aposta totalmente vencedora», pois tem tido forte adesão das populações e dos profissionais; promove anualmente a campanha “12 horas para as gengivas sãs”; publica, regulamente, a Revista Portuguesa de Estomatologia e Cirurgia Maxilo-Facial, «com assinalável prestígio e grande impacto no panorama científico nacional»; assegura o seu reconhecimento internacional, «através da manutenção de uma ligação formal à Federação Dentária Internacional (FDI); «tem garantidas condições logísticas de funcionamento na sua sede nacional em Lisboa e nas novas sede regionais de Coimbra (adquirida em 2008) e Porto (a mais recente, 2009)».
Por outro lado, ainda segundo José Pedro Figueiredo, a SPEMD tem sabido crescer de forma sustentável, uma vez que vê paulatinamente «aumentar o seu número de sócios, através das novas gerações de estudantes e de profissionais de saúde oral».
«Há nove décadas atrás, espíritos brilhantes criaram esta obra magnífica da estomatologia e (depois) da medicina dentária. Ao longo de 90 anos, alguns dos melhores médicos dentistas e estomatologistas portugueses prosseguiram o tão bem sucedido trajecto que nos trouxe até aqui. Hoje, a missão vai continuar, honrando os que nos antecederam e mobilizando as vontades dos que nos seguirão: cumprindo, com calor e com orgulho, o futuro que aí vem!».
Altruísmo e solidariedade
Ademais, o Congresso da SPEMD marcou o momento pela positiva porque “mandou às malvas” o recorrente pessimismo lusitano. Em tempo de crise, em que curiosamente o Fado volta estar na ribalta nacional, em que (quase) toda a gente anda literalmente a contar tostões, a carpir mágoas que lavam as pedras da calçada lusitana, a SPEMD trocou as voltas ao espírito reinante. Em vez de tentar amealhar as verbas, que não foram assim tão pequenas, do evento teve um singular gesto de solidariedade social e altruísmo. Todos os proveitos financeiros do Congresso foram entregues à Associação Mundo a Sorrir e à AMI, criada por Fernando Nobre, que teima em prestar auxílio aos desafortunados de todo o mundo…
Antecipando o “Natal” em vários meses, a SPEMD conseguiu contagiar o meio onde se move. Os palestrantes abdicaram do cachet; alguns até «pagaram do seu bolso» para vir a Portugal, segundo fonte da SPEMD. Nuno Guerreiro, o artista convidado (que substituiu Dulce Pontes) também embarcou na causa solidária e não cobrou qualquer verba pela sua actuação, que encerrou a parte social da iniciativa. Mais: conseguiu-se até que o Prof. Carlos Garcia Ballestra, médico espanhol de grande prestígio internacional, voltasse atrás na sua intenção de não mais dar conferências internacionais. Garcia Ballestra não resistiu à grandeza humana do projecto e, gratuitamente, deu um curso, de perto de 4 horas, sobre odontopediatria.
«Foi uma forma de cumprir uma componente de apoio social que muito honra a SPEMD e todo os participantes no Congresso, incluindo as empresas comerciais e a Indústria que patrocinam o evento e os palestrantes que acederam colaborar gratuitamente neste apoio aos mais desfavorecidos», explicou à Saúde Oral.
Congresso APHO
Em paralelo, ao evento principal realizou-se também o Congresso da Associação Portuguesa de Higienistas Orais (APHO), que teve dupla simbologia: foi o décimo congresso realizado e comemorou os 20 anos de existência da mesma sociedade científica. Sob o lema “20 anos a promover a profissão”, os organizadores realizaram uma série de iniciativas onde se reflectiu o presente e o futuro do ofício.
Falámos com o presidente da assembleia-geral da APHO, que se mostrou «satisfeito com a adesão positiva dos higienistas (mais de 100 num universo de 467)». João Pedro Ferreira justifica a realização do Congresso da APHO inserido no da SPEMD com a história da referida sociedade, é tradição, e habitual, esta iniciativa realizar-se dentro da outra, porque «somos uma associação pequena que não tem meios para organizar um congresso desta natureza. Paralelamente, temos oportunidade de participar num evento em que se abordam os grandes temas da saúde oral», explica.
Segundo João Pedro Ferreira, foi abordada a temática do futuro dos sistemas de saúde em Portugal. O futuro dos higienistas orais merece redobrada atenção? «O futuro ainda é algo incerto, mas vamos esperar para ver. As mudanças são muito grandes. Cada que vez que há mudança de Governo há mudança de políticas, por isso vamos aguardar».
Em relação à incontornável realidade dos seguros de saúde “dominarem” os actos clínicos, nomeadamente dos higienistas orais – muitas seguradoras “oferecem” este serviço aos seus clientes – o responsável manifesta-se muito relutante quanto às mais-valias destes acordos. «Não falo enquanto presidente da APHO, falo em meu nome pessoal, mas penso que eles enganam as pessoas. As pessoas chegam às clínicas e quando vão pagar, ou não têm abrangido certos serviços que lhes tinham sido prometidos, ou os valores de comparticipação são mínimos, etc. Conheço alguns casos em que as pessoas pagam mais caro do que pagariam se não tivessem seguros de saúde». Para João Pedro Ferreira, este tipo de situações fazem vir ao de cima a necessidade de os profissionais de saúde «avisarem as pessoas» para o canto da sereia em que, muitas vezes, os clientes caem. Pese embora a prática do “logro”, «é tudo legal» e não há forma de remediar a situação. Não obstante, este tipo de actuações das seguradoras «é pouco moral, porque esquecem que estão a lidar com seres humanos e com actos que supostamente serviriam para melhorar a vida das pessoas».
Em apreciação aos 20 anos de existência da APHO, o responsável refere que a sociedade está no bom caminho. Recentemente eleita a nova direcção, da qual o entrevistado faz parte, ainda está a meditar sobre os passos a dar e a delineação da «estratégia de consolidação de tudo aquilo que foi feito até agora. É um processo muito lento de crescimento. Todos os elementos estão aqui por amor à camisola, temos a nossa vida profissional. Eu sou de Coimbra, temos colegas do Porto, de maneira que não é fácil levar avante os nossos objectivos, mas estamos confiantes que o vamos conseguir. Não somos políticos, que prometem uma coisa e fazem outra, mas vamos tentar», conclui.


