Foi recentemente lançado o livro com os resultados de uma investigação sobre a resistência bacteriana a antibióticos. O estudo de Nádia Osório, docente da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra (ESTeSC), foi realizado no âmbito da tese de doutoramento em Biologia.
Durante a sua investigação, a docente conseguiu identificar proteínas e vias metabólicas envolvidas no ganho de resistência de bactérias a antibióticos, frequentemente usados na prática clínica. Esta descoberta pode vir a ajudar no desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas usadas no combate a infeções.
Segundo Nádia Osório, procurou-se em laboratório mimetizar de algum modo aquilo que acontece na vida quotidiana: “as pessoas tomam antibióticos errados, em quantidades erradas porque se automedicam, ou então porque às vezes alguém prescreve um antibiótico de largo espectro para erradicar a bactéria sem saber sequer qual é a bactéria ou seu antibiograma. Depois surgem por vezes reinfeções em que os antibióticos anteriormente utilizados já não funcionam, o que demonstra maior dificuldade no tratamento”.
A toma excessiva de antibióticos tem sido um dos problemas de saúde pública mais debatidos nos últimos anos, até porque a resistência aos antibióticos atualmente existentes no mercado está a fazer com que seja cada mais difícil combater infeções.
“Se soubermos que mecanismos a bactéria desenvolve, ou passa a expressar quando se adapta ao antibiótico, podemos desvendar novos targets para o desenvolvimento de novos antibióticos ou de outros compostos químicos ou terapêuticas que depois atuem neles”, explica a investigadora, realçando que esta é uma necessidade urgente dado que “cada vez mais estamos restritos à utilização de antibióticos e que, num futuro próximo, estes podem ser ineficazes e gerar um maior descontrolo no combate a infeções”, acrescenta a investigadora.
Para chegar a esta conclusão, a docente utilizou uma estirpe bacteriana que continha determinados genes de resistência, a qual não expressava, e por isso era sensível a várias classes de antibióticos usados na clínica, ou seja facilmente era eliminada. Depois, foi-lhe administrado em laboratório um antibiótico em dosagens ineficazes, que foi gradualmente aumentando e por isso a bactéria foi-se adaptando e foi sobrevivendo. “Ao fim de aproximadamente oito dias tinha uma bactéria que deixou de ser sensível a antibióticos e passou a ser resistente a três classes de antibióticos, obtive uma bactéria multirresistente”, refere.
Depois foram ainda avaliados os comportamentos da bactéria antes e após tratamento e compararam-se as proteínas expressas, identificaram-se e descreveram-se quais os possíveis mecanismos em que estas podem estar envolvidas, de modo a compreender a resposta adaptativa da bactéria.
Para Nádia Osório, esta investigação veio reforçar que é fundamental uma aplicação regrada dos antibióticos e que estes só deveriam ser aplicados em situações muito concretas e devidamente estudadas. “Seria mais assertivo na prática clínica, tentar reduzir a aplicação de antibióticos nas situações generalizadas, ou seja, que são mais fáceis de tratar. Deveria ser totalmente impeditivo a aquisição de antibióticos sem prescrição, tanto para a veterinária, quer para a saúde humana, e a população deveria ser constantemente informada das consequências negativas que estes comportamentos podem gerar. Evidenciando não só a mortalidade crescente associada ao aumento do número de infeções, assim como mostrar os custos elevados associados no tratamento prolongado de processos infeciosos – como medicamentos e internamentos”, conclui.


