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Tecnologia

Odontologia Digital: “Soluções de diagnóstico e planeamento num simples smartphone”

Odontologia Digital: “Soluções de diagnóstico e planeamento num simples smartphone”

As tecnologias digitais tornaram-se uma parte integrante do dia-a-dia do médico dentista. De tal forma que estão a revelar-se uma ferramenta fundamental na área do diagnóstico e do tratamento, bem como na área da comunicação com o paciente e com outros profissionais de medicina dentária.

Hoje em dia dificilmente se consegue dissociar ‘o digital’ da medicina dentária, já que está por toda a parte, quer no que respeita ao diagnóstico e ao tratamento, quer relativamente à gestão. Na verdade, “‘o digital’ não é novo na medicina dentária”, aponta Paulo Monteiro, do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, explicando que é uma tecnologia aplicada “há mais de 30 anos na nossa profissão”. A revolução, ou melhor, a democratização das tecnologias digitais deve-se essencialmente ao facto de “se terem tornado acessíveis à generalidade dos médicos dentistas”, conclui Paulo Monteiro. Deste modo, para o docente, o grande travão no acesso a estas tecnologias era o preço. No entanto “os fabricantes, sabendo dessa dificuldade, têm tornado os equipamentos mais acessíveis, possibilitando que mais médicos dentistas e mais clínicas possam ter acesso a estas tecnologias”.

O médico dentista dá um exemplo: “há cinco anos, para se adquirir um equipamento CAD-CAM chairside era necessário ter cerca de cem mil euros, agora existem no mercado diferentes opções a partir dos 35 mil euros”.

Dentro da clínica várias áreas vieram beneficiar com a evolução do digital. De acordo com Francisco Jesus, sócio-gerente da Tactis, uma delas é a gestão: “hoje em dia é possível aceder à ficha de um paciente através de qualquer campo que o possa identificar (por exemplo, cartão do cidadão), assim como os processos burocráticos estão simplificados e qualquer documento é produzido de forma quase instantânea (por exemplo atestados)”.

No entanto, os campos do diagnóstico e dos procedimentos clínicos também vieram a ser favorecidos com ‘o digital’. “A radiologia digital tem evoluído de forma exponencial ano após ano e assistimos a soluções que inicialmente se focavam na radiologia intraoral. Hoje o conceito foi vulgarizado, estando disponíveis soluções 3D, pelo que é possível um médico dentista efetuar um diagnóstico clínico em poucos segundos tendo por base imagens radiológicas”, conclui Francisco Jesus.

Por outro lado, ‘o digital’ possibilita “a transmissão de dados de qualquer fase do planeamento ou tratamento, o que facilita a comunicação e partilha entre os profissionais”, completa Luís Macieira, diretor-técnico da DentalRéplica.

Tecnologias digitais

A tecnologia digital a que o médico dentista pode recorrer é inúmera e variada. Por exemplo, alguns scanners intraorais “permitem-nos fazer a leitura de uma arcada dentária com uma enorme precisão, aumentando o campo de soluções clínicas aplicadas à tecnologia CAD-CAM”, salienta Paulo Monteiro. E os próprios programas CAD existentes “são muito mais completos e intuitivos de usar, o que os tem tornado mais fáceis de  trabalhar pelo médico dentista”. Neste sentido, continua o professor, “assiste-se a um processo de simplificação do digital”. Quanto à tecnologia CAM, os sistemas atualmente existentes “permitem uma reprodução mais exata das restaurações indiretas (coroas, onlays, inlays, overlays, facetas, pilares, pontes), com um mínimo consumo de tempo, sendo que devido às aplicações destes sistemas e à oferta de diferentes tipos de materiais para fresagem é cada vez mais possível produzir estruturas de maior dimensão”. Por outro lado, ainda sobre a tecnologia CAD-CAM e os scanners intraorais, Paulo Monteiro salvaguarda que “temos mais soluções chairside, em que apenas numa consulta é possível fazer a preparação do dente, a impressão digital, a fresagem no momento da restauração e a sua adesão à estrutura dentária”.

Se assim tem acontecido na área dos scanners intraorais e do CAD-CAM, outra ‘ferramenta’ que tem evoluído muito nos últimos anos é a já citada radiologia digital, “proporcionando diagnósticos mais exatos, acessíveis e possibilitando ainda uma integração no planeamento entre diversas áreas (cirurgia, reabilitação, ortodontia)”. Por outro lado, hoje em dia é também “possível utilizar esta tecnologia digital na ortodontia, fazendo as impressões digitais de um paciente e depois através da integração de diferentes softwares, estabelecer um planeamento e confeção dos dispositivos intraorais de tratamento”, refere o médico dentista.

odontologia digital - Saúde Oral

Áreas beneficiadas

Se de um modo geral todas as áreas da medicina dentária beneficiaram com a revolução do digital; em particular, na opinião de Paulo Monteiro, a reabilitação oral, a cirurgia (implantologia) e a dentisteria estética foram dos campos mais favorecidos: “a cirurgia através do diagnóstico e planeamento digital com a radiologia digital e a reabilitação oral através dos scanners intraorais e sistemas CAD-CAM”. No entanto, segundo o médico dentista, a dentisteria estética é igualmente uma área em que as tecnologias digitais “têm assumido um importante papel no diagnóstico e plano de tratamento”.

Também Andreia Marques e Ana Coelho, médicas dentistas e formadoras na Sorriso Natural, apontam a reabilitação estética e funcional como áreas privilegiadas, porém destacam ainda a ortodontia. No relativo à primeira área, “a relação entre os softwares DSD, tomográficos e de cirurgia guiada permitem implementar os eixos e as emergências dos implantes, aumentando a estética e diminuindo necessidades de colocação de pilares angulados, os quais acarretam custos extra e diminuem consideravelmente a estética”, explicam.

Já no respeitante à ortodontia, as médicas dentistas avançam que o “software Insignia permite dar a cada paciente um sorriso personalizado. Passamos a ter acesso a um modelo 3D virtual da oclusão ideal do paciente, conseguindo assim reduzir o número de consultas e ter resultados mais rápidos”. No entanto, Andreia Marques e Ana Coelho distinguem ainda que “outra revolução 3D é ao nível da ortodontia lingual, através da qual os brackets são colocados com guias, sendo que o Invisalign permite ter uma representação virtual da dentição, antes, durante a após o tratamento, permitindo antever o resultado final”.

A endodontia é outra das áreas favorecidas com a evolução do digital. Para Marco Fonseca, dental sales manager da Carestream Dental, isto deve-se “à resolução que se obtém hoje com os equipamentos 3D e 75 microns, que permite analisar e planificar com um detalhe nunca antes alcançado o tratamento do paciente”.

O digital e o paciente

As tecnologias digitais vieram então “aumentar a segurança de obter o resultado desejado e previamente aprovado”, indicam Andreia Marques e Ana Coelho, assim como permitir “o planeamento reverso dos casos, na medida em que se realiza o planeamento protético e cirúrgico previamente à implementação, obtendo os resultados esperados”. Se estas são, sem dúvida, mais-valias para os profissionais, também os pacientes vieram ‘lucrar’ com a implementação destas tecnologias no funcionamento rotineiro da clínica dentária. “Aumenta a aceitação e confiança do paciente na medida em que este vê o resultado final em fotografia ou em vídeo, ainda antes de se dar início ao tratamento”, sublinham as médicas dentistas.

Mas também a tecnologia digital ‘convencional’ pode ser aplicada à medicina dentária, “como os smartphones e tablets que, devido à criação de aplicações para o efeito, podem ser ferramentas muito interessantes em termos da comunicação com o paciente”, completa Paulo Monteiro. A utilização destes gadgets também veio facilitar a comunicação entre profissionais e estão em constante evolução, de tal modo que quase nos atrevemos a dizer que o futuro é hoje, na medida em que todos os dias surgem novas aplicações e funcionalidades. Paulo Monteiro garante que em relação à ‘tecnologia de bolso’, num futuro muito próximo “teremos soluções de diagnóstico e planeamento num simples smartphone, sendo que atualmente já existem algumas dessas aplicações, mas são pagas”.

Todos os dias surgem novos gadgets, que não tendo sido criados ‘a pensar’ na medicina dentária, acabam por poder vir a desempenhar um papel importante, como o Google Glass, que tem um computador e uma câmara incorporados e permite uma interação com a internet através da voz. Uma vez que os vídeos feitos com estes óculos podem ser difundidos em tempo real, em termos de formação, por exemplo, um procedimento pode ser visualizado por várias pessoas ao mesmo tempo, enquanto o médico dentista/formador está a realizá-lo, quando antes se estava confinado ao número de indivíduos possível em torno do paciente. Por outro lado há ainda a possibilidade, através da incorporação de determinadas soluções de software, de o profissional ter acesso à informação do exame do paciente, enquanto o está a completar, sem ter qualquer contacto com um monitor, apenas através da voz.

Mais acessíveis e portáteis

Passando aos equipamentos maiores (scanners intraorais, CAD-CAM, radiologia, etc.), a tendência é que estes “se tornem menores (portabilidade), mais acessíveis economicamente e com maior aplicabilidade clínica, transversal às diferentes áreas do conhecimento na medicina dentária”, aponta Paulo Monteiro. E chegará o dia em que a tecnologia digital será rotineira não só na clínica, como ao nível da análise forense. “Será possível seguir a evolução dentária de um paciente, prevenir futuros problemas dentários, prever a possível fratura de materiais dentários existentes em boca”, conclui o docente.

Máquinas fotográficas com wi-fi

Ivan Yoshio, autor do livor ‘A Arte da Fotografia Digital na Odontologia’, em entrevista à SAÚDE ORAL, refere que “é bem provável que as máquinas também comecem a possuir o software existente atualmente nos smartphones”.

De que modo a fotografia digital veio revolucionar a odontologia?

A fotografia digital revolucionou a odontologia pela velocidade que a informação é produzida, ou seja, podemos fazer uma fotografia e esta instantaneamente ficar pronta. Essa facilidade aumentou a qualidade do tratamento odontológico e possibilitou que mais pessoas realizassem as suas fotografias no consultório.

Ivan Yoshio - Saúde Oral

Graças à fotografia digital, o que se consegue fazer hoje que não se conseguia fazer no passado?

Hoje é possível a comunicação instantânea entre os profissionais. Consegue-se ver a fotografia ao mesmo tempo que foi realizada e existem diversos recursos atuais que torna possível fazer fotografias antes impossíveis de serem feitas por pessoas ‘comuns’.

Quais as áreas da odontologia que mais beneficiaram com a revolução da fotografia digital?

Todas as áreas são beneficiadas. Em todas as especialidades se recorre à fotografia digital pelos mais diversos motivos.

O que se deve ter em conta na hora de escolher a máquina fotográfica?

Hoje com o avanço da tecnologia, a máquina fotográfica digital ficou mais acessível sendo possível ao médico dentista comprar a máquina ideal. O que se deve ter em mente é que o ideal não é apenas a máquina e sim um conjunto completo que inclui a camara do tipo ‘profissional’, uma lente macro e um flash circular, pelo menos.

E em relação ao software?

O software, além da parte administrativa comum a todos, é interessante que se tenha no odontograma uma possibilidade de colocar as fotografias dos pacientes na sua pasta para se poder acompanhar o tratamento, bem como possibilitar ao paciente aceder aos seus dados e às suas fotografias para que também ele possa acompanhar a evolução do caso clínico.

Na área da fotografia digital em odontologia, quais as novidades que destaca?

Atualmente, a novidade é que algumas máquinas mais modernas já possuem wi-fi o que possibilita saltar a etapa de descarregar as fotografias. Deste modo, assim que a foto é tirada é possível enviar ao paciente ou ao laboratório. Algumas máquinas também já têm o visor touch, sendo que para quem está a começar e está familiarizado com essa tecnologia presente em todos os smartphones, torna-se mais rápido os ajustes e o manejo da máquina.

O que podemos esperar no futuro da fotografia digital em odontologia?

O futuro da fotografia digital na odontologia é a diminuição do custo do equipamento como um todo, o que possibilitará a adquisição do equipamento completo por mais profissionais. É bem provável que as máquinas também comecem a possuir o software existente atualmente nos smartphones. Esse software possibilitará publicar as fotografias em redes sócias, enviar via e-mail e utilizar outros aplicativos para poder editar as fotos de maneira mais prática na própria máquina. Isto seria verdadeiramente uma revolução na fotografia digital.

Artigo publicado na edição de julho/agosto de 2014 da revista SAÚDE ORAL

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