A Rapunzel, uma das princesas do mundo imaginário dos irmãos Grimm, ficou celebrizada pelas suas enormes tranças, pelas quais a bruxa má trepava para a ir visitar à torre, onde vivia aprisionada, e que mais tarde o príncipe, apaixonado pela jovem, também viria a utilizar. No dia em que descobriu o que se passava nas suas costas, a bruxa cortou-lhe as tranças, fazendo com que o magnífico cabelo de Rapunzel quase perdesse o seu encanto.
Esta é apenas uma história. Mas a verdade é que desde sempre que o cabelo, seguindo as modas – ora curto, ora comprido, encaracolado ou liso -, é uma componente muito importante da imagem do indivíduo. Assim como é uma preocupação constante, sobretudo quando se começa a dar conta da sua ausência. Se a Rapunzel se viu privada do seu belo cabelo através do corte, o certo é que, na realidade, cada vez mais a história é outra. A alopécia, no fundo a queda temporária, parcial ou geral dos pêlos ou cabelos, pode ser causada por múltiplos factores.
Alopécia androgenética
«A alopécia androgenética aumenta proporcionalmente com a idade, por isso, com 50 anos, 50% dos indivíduos do sexo masculino são afectados e com 70 anos são 70%, sendo que as mulheres são atingidas em menor grau», revelou Rui Tavares-Bello, durante o Primeiro Congresso Nacional de Ciências Dermatocosméticas, que decorreu na Universidade Lusófona, no dia 19 de Outubro. É um problema que afecta mais os homens, apresentando uma transmissão hereditária de tipo autossómico dominante, e que pode começar logo na juventude. Porém, no relativo às mulheres, é mais provável após a menopausa e a transmissão é de tipo autossómico recessivo.
Conhecida como «alopécia androcronogenética no caso do sexo masculino e padronizada no caso do sexo feminino, parece ter mecanismos alvos diferentes, mas que no plano da expressão fenotípica são semelhantes, na medida em que existe uma miniturização folicular, havendo uma conversão dos cabelos terminais em cabelos tipo velos, que são muito fininhos», continua o dermatologista.
No homem, o cabelo cai de acordo com um padrão bem definido, começando por cima da zona das têmporas. Varia, assim, da recessão bitemporal até à rarefacção frontal e/ou vertex (cocuruto), ou perda de todo o cabelo, excepto nas regiões occipital (posterior) ou temporal (lateral). Paradoxalmente, os indivíduos com alopécia acentuada apresentam pêlo excessivo noutras zonas, como axilas, área púbica, peito e barba. Já na mulher, o cabelo torna-se mais fino e rarefeito à frente e raramente chega à calvície total.
A alopécia androgenética é frequentemente associada a alguns problemas de saúde, como a doença coronária e o aumento da próstata e, adicionalmente, ao cancro da próstata, desordens derivadas à resistência de insulina e à hipertensão. Quanto às senhoras, está relacionada com um aumento do risco do sindroma de ovários policísticos.
Uma variedade de factores genéticos e ambientais parecem desempenhar um papel importante na alopécia androgenética e, apesar dos cientistas continuarem a estudar os agentes de risco que possam contribuir para esta condição, a maior parte deles continuam desconhecidos. «O que se demonstrou neste processo da alopécia androcronogenética é que apesar do determinismo ser multifactorial, a realidade é que os ceratinócitos são afectados pela radiação ultravioleta, e isto leva à produção de citoquinas pró-inflamatórias que depois vão agravar todo o processo, através de inflamação de fibrose perifolicular», assevera o especialista.
Por outro lado, os androgénios, especialmente a diidrotestosterona, também foram relacionados com esta forma de queda de cabelo, sendo que estas hormonas assumem uma grande importância no desenvolvimento sexual masculino durante a puberdade.
A vida do cabelo começa nos folículos, crescendo depois durante um período de dois a seis anos, ao qual se segue uma fase de descanso que dura vários meses e, por fim, cai, sendo que o ciclo recomeça quando começa a crescer outro cabelo no folículo. Contudo, se houver níveis elevados de androgénio nesta estrutura, o ciclo pode tornar-se menor e o cabelo cresce mais fino e mais curto.
Um dos genes causadores da alopécia androgenética é o AR. Todavia, os investigadores acreditam que outros poderão provocar esta condição. Este gene é o responsável por dar “instruções” de modo a que sejam produzidos os receptores de androgénio, que permitem que o organismo responda adequadamente às várias hormonas deste tipo. Não obstante, ainda não se conseguiu explicar de que maneira estas alterações genéticas aumentam o risco de queda de cabelo padronizada em ambos os sexos.
O diagnóstico clínico baseia-se na história fornecida pelo doente, padrão de alopécia e incidência familiar. Nalguns casos, pode ser necessário recorrer a uma biópsia de pele, que ajudará a determinar se os folículos pilosos são normais – o tricograma permite analisar a morfologia do folículo piloso. Em mulheres que evidenciem sinais de virilização, deve ser estudado o perfil hormonal (testosterona, dehidroepiandrosterona, prolactina). Para excluir causas tratáveis, são avaliados a TSH, T4, ferro e ferritina no sangue.
O objectivo do tratamento é promover o crescimento do cabelo e atrasar o processo de rarefacção do mesmo. Pode ser medicamentoso ou cirúrgico, mas a sua eficácia é, habitualmente, limitada. Como medicamentos, considera-se a finasterida, que interfere com o metabolismo da testosterona, e cujo efeito é avaliado a longo prazo (o aumento da quantidade de cabelo só é notório após seis meses de toma mas, após três meses, já impede a progressão da queda de cabelo). O minoxidil, aplicado topicamente, pode ser combinado com ácido retinóico tópico. Na mulher com elevados níveis de androgénios podem ser usados agentes anti-androgénios (espironolactona, flutamida, entre outros). O transplante de cabelo significa a extracção de folículos pilosos de outras partes para posterior enxerto no couro cabeludo e constitui a forma de tratamento mais eficaz.
Alopécia Areata
A alopécia areata é uma doença na qual se perde cabelo inesperadamente numa zona concreta, normalmente no couro cabeludo ou na barba. É uma patologia auto-imune, de causa desconhecida, na qual o sistema imunitário ataca os folículos capilares.
O indivíduo com alopécia areata pode perder todo o cabelo do couro cabeludo (alopécia total) e ainda, para além deste, todos os pêlos do corpo (alopécia universal).
Não poupando grupos étnicos nem géneros, são os jovens e as crianças os mais frequentemente afectados, contudo todas as idades são susceptíveis a desenvolver a doença. Além disso, uma em cada cinco pessoas com alopécia areata tem um familiar que também sofre da patologia.
É provável que o cabelo torne a crescer, todavia pode voltar a cair. É uma enfermidade imprevisível, no sentido em que varia de caso para caso e não se consegue prever quando o cabelo vai voltar a desenvolver-se ou a cair. Nalguns indivíduos, depois do cabelo voltar a aparecer na zona afectada, a condição nunca mais se manifesta. Não obstante, o ciclo de crescimento e queda pode estender-se por vários anos noutras pessoas. Os especialistas da American Association of Dermatology alertam para o facto de poder ocorrer uma recuperação total, mesmo nas pessoas com alopécia total ou universal. O cabelo poderá, ainda, nascer mais fino e branco, mas a textura original, assim como a cor, poderão reaparecer mais tarde.
A patologia não tem cura e, por isso, apenas o organismo poderá derrotá-la. Existem alguns tratamentos que, apesar de promoverem o crescimento na zona afectada, não impedem a queda de cabelo noutras áreas. São sobretudo à base de corticosteróides ou mesmo de antralina. Quanto ao futuro, estão a ser estudadas as terapias que envolvem imunomoduladores.
Outras alopécias
Tal como a alopécia androgenética e a areata, o eflúvio telogéno pertence ao grupo das alopécias não-cicatriciais. Caracteriza-se pela queda intensa de cabelos na fase telógena ou de descanso. As causas podem ser várias, desde situações de pós-parto, de interrupção do uso de pílulas anticoncepcionais ou de reposição hormonal, infecções e doenças acompanhadas de febre alta, traumas físicos e/ou emocionais, pós-operatório, doenças da tiróide, deficiências nutricionais (ferro, zinco e proteínas), dietas muito restritivas (com ou sem medicamentos) e agentes quimioterapêuticos.
A queda de cabelos acontece dois a quatro meses após o factor desencadeante e pode, inclusive, ser bastante intensa, ou seja, superior a 100 fios por dia. A doença, apesar de não ter nenhum outro sintoma, pode estar associada a outras patologias, como a dermatite seborreica que, quando excessiva, também pode ser um factor desencadeante do eflúvio telógeno.
Pelo contrário, o eflúvio anágeno diz respeito à queda de cabelo aquando a fase de crescimento ou anágena. Neste campo, a quimioterapia e a radioterapia são as causas mais frequentes.
Já a alopécia cicatricial é uma perda de cabelo que ocorre em áreas cicatrizadas. A pele pode cicatrizar por queimaduras, lesões graves ou uma terapia com raios X. Causas menos evidentes de cicatrizes incluem o lúpus eritematoso, o líquen plano, as infecções bacterianas ou micóticas, a sarcoidose e a tuberculose. Os cancros da pele também podem provocar cicatrização.
Fontes consultadas:
http://ghr.nlm.nih.gov/ghr/glossary/alopecia
http://ghr.nlm.nih.gov/condition=androgeneticalopecia
http://www.aad.org/public/Publications/pamphlets/AlopeciaAreata.htm
http://www.aad.org/aad/Newsroom/Hair+Loss+in+Women+More+Than+Meets+the+Eye.htm
http://www.merck.com/mmpe/sec10/ch124/ch124b.html
O transplante de folículos
Um dos tratamentos da alopécia passa pela cirurgia de transplante de folículos. «O transplante capilar é uma cirurgia mal amada, que toda a gente julga que é dolorosa e que os resultados são péssimos. E quando alguém conhece uma pessoa que fez um transplante é pela negativa, ou seja, porque se percebe que realmente fez uma cirurgia deste tipo. Contudo, pode-se fazer um transplante sem cicatrizes, com um pós-operatório simples e com um aspecto natural a posteriori», assevera Carlos Silva, director de uma clínica que se dedica a esta área.
Há dois anos em funcionamento, já foram efectuados 150 transplantes. «O nosso método tem a ver com duas técnicas, uma de extracção e outra de implantação, que permite fazer a extracção sem deixar cicatrizes nem marcas», afirma Carlos Silva, acrescentando que «possibilita fazer a implantação colocando o cabelo com a inclinação normal, para que não se note que foi feito um transplante». A cirurgia consiste em «mudar folículos de sítio, tendo em conta que há uma zona de falta de cabelo».
Basicamente, esta operação «destina-se a tratar situações relacionadas com a alopécia». No entanto, o responsável salienta que, «primeiro, a pessoa deve contactar o seu médico para saber a razão da queda».
Os pacientes da clínica são «80% homens e 20% mulheres», refere o director clínico, explicando que as ocorrências que surgem no caso «das senhoras são relacionados com falta de densidade na parte superior da cabeça, por exemplo a seguir à gravidez». No relativo aos homens, «já é diferente, pois alguns aparecem para corrigir a linha da frente, as entradas ou até já muito calvos». Todavia, destaca, «se não têm cabelo na zona de trás, que é a área doadora, não conseguimos ter cabelo para mudar de sítio».
Ciclo do cabelo
O cabelo é constituído por uma substância denominada queratina, assim como as unhas das mãos e dos pés. Uma estrutura especializada dentro da pele, chamada papila, é a responsável pela sua produção e encontra-se protegida pelo folículo. O fio de cabelo é constituído por três camadas: o cutículo (camada exterior), o córtex (camada do meio) e a medula (o centro do cabelo).
A cor depende dos pigmentos do córtex e à medida que se envelhece estes deixam, gradualmente, de ser produzidos, o que dá origem aos cabelos brancos ou cinzentos. Em média, o ser humano possui 120.000 fios de cabelo no couro cabeludo, sendo que as pessoas louras parecem ter mais cabelo do que as restantes.
Além disso, todo o corpo se encontra coberto por pêlos, excepto os lábios, as palmas das mãos e as solas dos pés. Cada indivíduo tem, em média, cinco milhões de pêlos espalhados pelo seu corpo. Um cabelo pode crescer durante cinco anos e ao fim deste tempo entra na fase de descanso, que dura 12 semanas. Após este período, o fio cai, dando início a um novo ciclo de crescimento. Por dia, podem cair cerca de 100 fios.
O crescimento normal capilar depende de um bom fornecimento de sangue à papila e de uma boa saúde.
A queda de cabelo na mulher africana
As afro-descendentes sofrem de uma queda de cabelo chamada central centrifugal cicatricial alopecia (CCCA), que é caracterizada pela perda de cabelo no topo do couro cabeludo e diferencia-se da alopécia padronizada (que afecta a mulheres caucasianas), porque os folículos têm a tendência a ser destruídos e não apenas miniturizados. E, uma vez que o folículo é destruído, é impossível o cabelo voltar a crescer. Estas mulheres correm o risco de desenvolver a condição cicatricial ou permanente, o que frequentemente acontece.
Depois do diagnóstico, normalmente através da biopsia ao couro cabeludo, a terapêutica começa pelo tratamento das infecções e pelo uso de anti-inflamatórios, com o objectivo de eliminar as células inflamatórias que estão a atacar e a destruir os folículos capilares.
Apesar das causas que provocam a CCCA serem desconhecidas, as investigações prosseguem no sentido de determinar se os cuidados práticos do dia-a-dia podem estar envolvidos, já que estas mulheres normalmente esticam o cabelo, usam tranças apertadas e extensões pesadas, ao contrário das caucasianas.


