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Investigação

Investigadores portugueses estudam terapia fágica em doenças orais

Investigadores portugueses estudam terapia fágica em doenças orais

O Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho foi contactado em dezembro de 2014 por uma clínica australiana para desenvolver um projeto de investigação do uso da terapia fágica em doenças orais. Falámos com Joana Azeredo, uma das investigadoras responsáveis, que revela como surgiu a oportunidade de colaborar no estudo da terapia fágica, descontinuada com a descoberta dos antibióticos, mas que voltou a suscitar interesse devido às resistências aos antibióticos.

Como surgiu a oportunidade de colaborar com a clínica australiana no projeto de saúde oral?

Mark Peddey, dono da clínica australiana Mark Peddey Pty Ltd, é um entusiasta da terapia fágica (utilização de bacteriófagos, que são vírus que matam bactérias, no tratamento de infeções bacterianas) e desde 2009 tem estado à procura de investigadores capazes de desenvolver um projeto que visa a utilização da terapia fágica em doenças orais. Após ter visitado vários grupos de investigação em todo o mundo, este empresário e clínico decidiu atribuir o projeto ao grupo de investigação em biotecnologia de bacteriófagos do Centro de Engenharia Biológica da Universidade do Minho.  O contrato foi celebrado em Dezembro e os trabalhos iniciaram em março com a visita do investidor ao centro de investigação.

Em que consiste o projeto que tem por objetivo tratar a doença periodontal?

O projeto consiste em desenvolver um produto com base num cocktail de bacteriófagos capazes de matar especificamente bactérias envolvidas na doença periodontal, nomeadamente as espécies Porphyromonas gingivalis, Tannerella forsythia, Treponema denticola e Parvimonas micra. Estas espécies estão envolvidas na formação de biofilmes bacterianos no espaço perigengival e acredita-se que a remoção seletiva destas bactérias permite a redução da carga microbiana no local e a virulência do biofilme e portanto a atenuação ou mesmo eliminação do problema. Esta consiste numa forma de tratamento não invasiva e natural sem recurso a antibióticos.

Como se vai processar este tratamento inovador contra as bactérias patogénicas?

A forma de tratamento passa por uma aplicação local de um gel contendo o preparado fágico. O preparado fágico é um cocktail de bacteriófagos com um espetro de ação alargado, mas específico para as espécies referidas. Os bacteriófagos são vírus que infetam especificamente bactérias (os seus hospedeiros) replicam-se no seu interior e causam a lise (rutura) da célula para a libertação das partículas virais formadas que irão infetar mais bactérias. Estes vírus são muito específicos para bactérias e não causam nenhum dano nas células em humanos. Existem vários estudos de biosseguranças dos bacteriófagos que provam que são absolutamente inofensivos para o homem, aliás sabe-se que eles vivem no nosso organismo e podem proteger-nos contra doenças.

É a primeira vez que investigam este tipo de bactérias?

Se me permite eu reformularia a pergunta, as bactérias já são conhecidas, o que não se conhece são os fagos.

Como se aplica a terapia fágica no controlo da doença oral

É a primeira vez que se investiga essa alternativa terapêutica?

A terapia fágica existe desde o início do século XX para o tratamento de doenças infeciosas, contudo com a descoberta dos antibióticos a terapia fágica foi descontinuada no mundo ocidental e restringe-se atualmente a países da Europa de Leste. No entanto, com o aparecimento das resistências aos antibióticos tem havido um crescente interesse nesta temática, caracterizado pelo aumento do esforço de investigação na melhoria desta abordagem terapêutica. Os estudos de investigação têm-se centrado fundamentalmente na terapia de doenças bacterianas respiratórias, otites, amigdalites, feridas crónicas, infeções intestinais e urinárias, mas não existe nenhum estudo que aborde esta terapia no controlo da doença oral, provavelmente pela dificuldade no isolamento de bacteriófagos capazes de infetar especificamente as espécies bacterianas acima mencionadas.

O tratamento pode revolucionar o tratamento da doença periodontal?

Revolucionar não sei, mas pelo menos oferecer uma alternativa terapêutica natural sem o recurso a antibióticos, permitindo a redução do uso de antibióticos no tratamento de doenças orais, com um impacto enorme na saúde pública e no ambiente.

Qual o prazo para o estudo estar concluído?

O estudo passa por várias fases, numa primeira fase é o isolamento, caracterização e otimização do controlo das bactérias in vitro e depois será utilizado um modelo de periodontite em ratinhos para a validação in vivo. A fase in vitro durará aproximadamente seis meses. Estima-se que ao final de um ano de trabalho já se consigam ter os primeiros resultados.

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